quarta-feira, 22 de novembro de 2023

Crítica do curta Nosso Pé de Manga, por Klewerson Lima da Silva


 

 “Nosso pé de manga”, curta-metragem dirigido por João Oliveira, escrito por Caio Israel, tem um arco narrativo que perpassa por algumas questões sociais como a gravidez na adolescência, a perda familiar, lembranças e simbolismos, que se compõem de forma harmoniosa na construção do roteiro. 

O cenário utilizado é uma paisagem que nos remete a maioria dos interiores do Brasil. A linguagem nos localiza na região nordeste e a casa na perspectiva arquitetônica da década de cinquenta, com ladrilho e lajotas, terreno grandes que dificilmente vemos nas grandes cidades. É lá que está o pé de manga, no qual a história se entrelaça.

A história parte do pé de manga estar morrendo e, com esse fato, morre também a ultima lembrança do marido/pai: um pouco da memória da formação familiar morrerá juntamente com a o pé de manga. Esse ponto de partida nos direciona a cenas protagonizadas por “dona Arlete”. O filme é construído em um conflito familiar, com diálogos entre mãe, filha e neta, que expressam os sentimentos de culpa, de perda e saudade, marcados especialmente nas falas rotineiras da mãe. 

A trilha sonora no final, com o uso de uma voz-over poeticamente declamada pelo marido, opera o fechamento das questões postas pelo curta-metragem. Em um bilhete achado na bíblia, a personagem da mãe obtém a resposta que lhe faltava para aceitar a falta e a realidade vivida pela filha. Na cena final, no retorno da igreja, dona Arlete caminha pela rua em direção a sua casa, com o olhar tenso e aliviado, em prantos. Ela entende que o acaso não tem culpado. São as lembranças e emoções de dona Arlete que encerram o filme, simbolizados pela carta e pelo pé de manga.

Crítica do curta Ceifar Cansa, por Thiago Henrique Ferreira


"Ceifar Cansa", curta-metragem de Bruno L. Gaudencio, conta a história de Helena, uma psicóloga que, ao chegar em casa depois de um dia de trabalho, encontra seu pai sendo levado pela Morte. Para convencer a entidade a desistir de efetivar o destino de seu pai, Carlos, Helena convida a Morte para uma sessão de terapia. 

O curta mergulha de forma inusitada em temas filosóficos, como o sentido da vida, o medo da morte, Deus, entre outros, do mesmo modo que aborda problemas contemporâneos como a depressão, conduzindo os espectadores por uma reflexão descontraída. 

A escolha do cenário não convencional, ao colocar a morte em um contexto terapêutico, demonstra uma forma hábil de abordar temas densos de maneira inovadora. O roteiro, também de Bruno L. Gaudencio, é repleto de diálogos simples e de fácil entendimento, mas que carregam questionamentos existenciais, convidando o espectador a refletir sobre a complexidade da vida humana, especialmente quando confrontada com a inevitabilidade da morte. 

A iluminação desempenha um papel fundamental na criação da atmosfera do curta, oscilando com um vermelho forte conforme a intensidade emocional da Morte. Os enquadramentos, por sua vez, em certos momentos isolando os personagens por meio de planos e contraplanos, em outros momentos os aproximando em um plano único, deixam explícito na tela quando os mesmos estão próximos ou distantes emocionalmente. 

A direção de arte, embora minimalista, contribui para a ambientação única do filme, destacando-se pela simplicidade que adiciona profundidade ao enredo, caracterizando a personagem Morte de forma convencional (com seu manto e capuz negros e uma foice), para depois, coloca-la com um sapato confortável, caracterizando um personagem que, mesmo usando seu “uniforme de trabalho” padrão, está fazendo isso há tanto tempo que usa um calçado mais confortável por baixo de suas vestes para continuar seu trabalho infindável. 

A trilha sonora, embora discreta, com um tic-tac de relógio pontual, para lembrar aos espectadores e aos personagens que o tempo passa e a morte se aproxima, desempenha um papel significativo na condução das emoções, reforçando os momentos de reflexão e afeto. A edição, dinâmica, contribui para o ritmo envolvente da narrativa, mantendo o interesse do espectador até o fim. 

"Ceifar Cansa" não se limita a explorar as sombras de temas sérios e filosóficos, mas, de maneira única, tece uma mensagem positiva sobre a vida no desenrolar da trama. A conclusão do curta oferece uma perspectiva inspiradora, sugerindo que, apesar das lutas internas, a vida vale a pena ser vivida.

Crítica do curta Na Minha Época, por Reverton Rocha Pantoja

 



Na minha época, animação universitária de Brisa Azevedo, acerta no que se propõe a ser, como um curta 2d simples, com um enredo despretensioso e uma animação entendível. Fãs de animação independentes brasileiras não devem deixar de conferir essa realização, sobretudo, os frequentadores de eventos de cinema, pois a experiência de 12 minutos tem potencial em agradar, se lhe der uma chance. Eu acredito que ela se encontra no ambiente ideal onde pode encontrar janela de exibição e público que é dentro de festivais, pois a estética pré-escolar, somada ao enredo infanto-juvenil direciona esse produto a um publico majoritariamente infantil. Entretanto, com a alta acessibilidade presente com produções desse nicho na internet ou na TV, o curta pode encontrar um grau de rejeição entre os mais jovens (e mais velhos também) considerando que a produção não aparenta ter um certo domínio do desenho, o que fica explicito no design dos personagens que os torna pouco atrativos visualmente, o que é vital para a empatia e “apelo” ao público, em especial crianças. Como um adulto apreciador das animações alternativas, como as exibidas em encontros audiovisuais, consigo ter o grau de simpatia pelo trabalho e também por respeitar as adversidades que um trabalho produzido por 3 pessoas teria, e isso reflete solenemente os desafios de se trabalhar dentro do cenário estudantil, ocupação que já é desafiadora mesmo para produções audiovisuais live action, que em muitas vezes conta com amizade e boa vontade de colegas. Aqui podemos ver o padrão onde um único individuo exerce diversas funções. 

A história acompanha Miguel, que depois de ser repreendido pela mãe por se atrasar para escola, acontecimento ocasionado pelo apego do garoto a um jogo eletrônico, escuta de sua avó os relatos sobre os tempos estudantis da matriarca, que aparentemente vivia a juventude ali mesmo pela região. O enredo não se segura tanto na discrepância entre as épocas de avó e neto, e sim na curiosidade do protagonista e a forma que vai conhecendo e aprendendo sobre  a distante realidade das décadas anteriores da cidade, como a existência antiga  de uma ponte no caminho para a escola ou uma estação de trem atualmente inutilizado. 

Embora os personagens não sejam visualmente “simpáticos” principalmente à primeira vista, a progressão da história ocasiona uma maior aceitação dessas feições e dos cenários, o que eu colocaria como um ponto alto do filme. Assim como o design, o movimento dos personagens (especialmente do rosto) pode causar um certo estranhamento inicial, mas vão se tornando mais toleráveis a ponto de desaparecer de nossa percepção. Identifico uma certa influência da animação britânica Charlie e Lola, do Discovery kids.

Dito isto, Na minha época é um exercício curioso, que vale o tempo do espectador.

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Crítica do Curta-metragem Franco, por Izabela Chaves

 


O curta-metragem universitário "Franco", dirigido e roteirizado por Sarah Vivas e Mariano Jiménez, representando a UNILA – Universidade Federal de Integração Latino - Americana, destaca a fragilidade da mente humana ao explorar o inconsciente, o delírio, incorporando elementos do surrealismo,  promovendo revelações de sentidos  e conectando livremente ideias. 

O inconsciente da mente humana sempre foi uma temática explorada por diversos cineastas, e no início do curta "Franco", essa exploração se inicia com retratos de pinturas e espaços vazios na parede. Franco, enquanto toma chá com uma jovem, é interrompido pelo telefone, momento em que a narrativa toma um rumo intrigante. Ao invés de seguir o olhar na mesma direção da jovem que saiu de cena, Franco volta-se para o lado oposto que marca o início de uma virada inicial. 

A história ganha complexidade quando Franco, ao ouvir a chamada da jovem, se levanta e entra em um corredor com várias portas. Cada entrada revela um momento diferente, indicado pela mudança na roupa de Franco. No entanto, a narrativa não deixa claro se esses momentos pertencem ao passado ou ao presente, mantendo uma aura de incerteza. 

A transição entre realidade e delírio se intensifica quando a voz da jovem agora vem através do rádio. Franco, seguindo na direção dela, encontra situações surreais, como uma porta que se transforma em um cavalete com uma tela de pintura em branco. Essas metamorfoses sugerem que a realidade está constantemente se transformando, levantando questionamentos sobre o que é real, o que é memória, lembrança ou sonho ao espectador. 

A direção de arte desempenha um papel significativo, especialmente com objetos de arte que fornecem pistas cruciais como, por exemplo, referências a obras surrealistas. De igual modo, o relógio derretido pendurado na parede, lembrando a obra de Salvador Dalí, contribuindo para a ambientação da história. Na sequência, o objeto na parede que Franco faz, aparentemente, um teste de interpretação, adicionando  camadas de significado à narrativa. 

A trilha sonora, as projeções nas paredes e vozes em off, combinadas com pistas visuais, criam uma atmosfera envolvente. A revelação profunda e criativa de que Franco está lidando com o impacto de uma doença acrescenta um elemento emocional à trama. O roteiro é habilmente construído, proporcionando uma experiência que oscila entre a leveza e a reflexão sobre uma temática importante. Em última análise, "Franco" nos conduz a uma jornada pelo inconsciente do personagem, oferecendo uma experiência sensível e emocionante que abrilhanta o fazer cinematográfico universitário.

Crítica de Fora da Caixa, por Denize Ramos de Araújo


No cenário universitário, o filme escrito e dirigido por Giovana Padovani é bastante “Fora da Caixa”. O curta-metragem narra um período na infância de Elisa, interpretada por Clarice Gripp nessa fase que, durante o retorno da escola, conhece Felipe (Eric Brandão) em um parque e se tornam grandes amigos. Contudo, a forte amizade acaba prejudicando as notas da menina que se vê obrigada pela mãe a se afastar de sua nova amizade. 

Já adulta, Elisa, agora interpretada por Alana Guedes, se muda para um apartamento e questiona a veracidade de suas memórias. O roteiro é bastante simples e raso em alguns momentos. De início, a construção da amizade dos protagonistas me pareceu bem simples e pouco elaborada. Contudo, é de se levar em conta que a amizade entre crianças se dá de forma tão ou mais simples que essa. Nesse primeiro segmento, a direção de arte é bem elaborada e eficiente e transmite um mundo infantil. Detalhes como os objetos de cena do quarto, o uniforme da escola e os adereços são muito bem feitos. 

Entretanto, o que se sobressai são as sequências onde os desenhos de Elisa são animados e introduzidos em certas cenas para ilustrar o sentimento que ela está passando. A direção constrói planos seguindo bem a cartilha de filmes infantis e rebaixa a câmera ao ângulo de visão, para enxergarmos o mundo como Elisa o vê. A trilha sonora é muito bem aplicada, embora os efeitos sonoros poderiam ser mais presentes. A presença de Felipe é quase mágica, o garoto aparece e some como um amigo imaginário, em dado momento até mesmo surge no quarto de Elisa para brincar e desaparece sem deixar rastros. Isso nos induz a imaginar que sua presença não é real, pois nenhum outro amigo de Elisa de sua idade é mostrado. 

Os personagens interpretados por Vinícius Cristóvão, José e Carol Gerliein (professora de Elisa) possuem pouco tempo de tela, embora saibam fazer bom uso desse tempo quanto a sua interpretação. Já Mônica, a mãe de Elisa, interpretada por Sandra Almeida, desempenha muito bem o papel de contraste entre o pragmatismo da vida adulta e a inocência da infância. Na segunda parte do curta, acompanhamos Elisa já adulta, com Alana Guedes nos entregando uma Elisa sem o mundo colorido a sua volta. A arquitetura do espaço e o branco dominante do quarto me lembra bastante a arquitetura moderna, nem um pouco atrativa para as crianças. 

Diante da vida adulta e longe da mãe, a protagonista se questiona – assim como nós – se Felipe alguma vez foi real. Em um museu, rodeada de obras de artes abstratas, Elisa se encontra ao lado de alguém com os mesmos sapatos de Felipe. Talvez seja a imaginação da criança Elisa tentando dar cores a sua vida adulta. Em última análise, “Fora da Caixa” revela-se uma obra cinematográfica que vai além das expectativas convencionais, oferecendo uma jornada única através da infância, amizade e reflexão sobre a realidade das nossas lembranças. A simplicidade do enredo é compensada pela riqueza na construção visual e sonora, proporcionando uma experiência sensorial profunda. 

A dualidade entre a vida vibrante da infância e a monotonia da vida adulta é habilmente explorada, com destaque para a interpretação cativante de Alana Guedes e a presença enigmática de Eric Brandão como Felipe. Ao questionar a veracidade das memórias e explorar a imaginação que permeia a transição para a idade adulta, o filme de Giovana Padovani deixa uma impressão duradoura, convidando os espectadores a contemplarem a magia que reside nos recantos mais profundos de suas próprias experiências.

“O sapo que não lava o pé, mas cuida bem de sua fazendinha”. Crítica cinematográfica do filme “COAXO”, por Milene Rose.



‘COAXO’ é o título do curta-metragem de animação em stop-motion de Cecilia Silva Martinez, que conta a história de um simpático sapinho fazendeiro que acorda em seu pequeno vilarejo para mais um dia de trabalho. Com seu chapéu de palha, sua jardineira jeans e seu bom humor, ele colhe seus legumes, pesca em sua lagoa e aproveita a natureza ao redor cochilando após um entardecer inteiro de trabalho. 

Ao despertar de seu sono de descanso, um barulho de rastejo em meio a vegetação local chama sua atenção. Ele acaba por seguir o barulho, tentando descobrir de onde vem. Seguindo mata adentro, pouco a pouco aquela sensação de ser observado pelo desconhecido o deixa apreensivo, com medo. Ele puxa do bolso de sua jardineira uma colher, a qual aponta para o grande monumento que se sacode a sua frente, cobrindo o luar. Ele recua dando pequenos passos para longe da coisa, mas a gigante cabeça de uma cobra cascavel está parada logo atrás dele, e somente aí ele a percebe. A narrativa se encerra beirando aos 3 minutos de seu esplendor e simpatia com o gentil sapinho fazendeiro se esquentando em uma fogueira, dentro do que parece ser o interior da tal cobra, junto de seus trapinhos pendurados em um varal improvisado. 

Henrique Lima assina a direção de arte e a direção de animação com total leveza e saudosismo, e que nos leva para um lugar que nos resgata desenhos da nossa infância, ao qual intencionalmente ou não, acabamos por relembrar após assistir a obras como “COAXO”. A caracterização do sapinho protagonista por momentos nos lembra a persona de “Rango” (2011), um camaleão de estimação da cidade grande que, por acidente, acaba por parar no deserto de Mojave, na Califórnia. 

O curta também nos remete a demais obras que utilizam do stop-motion de maneira similar enquanto a sua estética, como na série “Hello Kitty: Vila Da Floresta” (2004), animação em argila dividido em episódios e que não conta com diálogos, apenas a narração das histórias a cada capítulo. Assim como “Hello Kitty: Vila Da Floresta”, “COAXO” não apresenta diálogos, mas diferente da obra citada, também não há uma narração em voice over. A narrativa animada por si só nos revela os momentos e acontecimentos em seu devido tempo – tempo este bem aproveitado em um curta de somente 4 minutos, sendo pelo menos 1 minuto deste dedicado aos créditos finais do projeto. 

Contando com uma trilha sonora e ambiência – assinadas por Otávio Vassão – que juntas nos acompanham quase que lado a lado ao sapinho fazendeiro, o filme guia com maestria a direção de som, construindo momentos de tranquilidade por meio da sonoridade e trilha, mas também de tensão presentes no enredo, além do trabalho de foley somado aos adereços da direção de arte, todos presentes de maneira delicada e fiel a proposta artística apresentada desde os primeiros segundos do projeto. 

Assim, “COAXO” se destaca não somente pela execução plena e muito bem trabalhada ao longo de seus aconchegantes 4 minutos, mas pela naturalidade e originalidade que um sapinho de chapéu, sua fazenda e um desfecho devorado – porém quentinho – podem nos trazer.

Um texto sobre memórias, por Kevin Castro



O curta-metragem “Com carinho” foi escrito e dirigido por Pablo Félix, residente no município Guapimirim no Rio de Janeiro, o filme é uma memória de infância contada pela protagonista. Em seu aniversário sua avó vem visitá-la, em virtude delas comemorarem no mesmo dia e ela ajuda com seu trabalho de escola. Nesse sentido, a obra em si tenta fazer um recorte de uma memória de infância do imaginário coletivo, trazendo essa relação familiar entre filhos e avós. Em sua direção, busca articular o desfoco como elemento essencial que ajuda na composição visual do filme, conduzindo um aspecto onírico nessas lembranças. Um ótimo exemplo disso é na cena inicial em que vemos a garota mais velha em sua mesa olhando seu caderno que está focado e esse foco é mudado quando ela escreve em seu teclado o que viu em seu caderno. 


Quando a gente se lembra de algo de nossa infância, nem sempre essa memória está nítida ou nunca conseguimos lembrar exatamente de todos os fatos que ocorreram em nossa vida. Dessa maneira, ao decorrer do curta, o diretor se utiliza do desfoco para criar esse aspecto de lembrança por parte da protagonista. Nem sempre o mundo ao redor está completamente nítido e de fácil visualização, isto é, como na cena em que ela vai na loja de roupas com sua avó e a janela da loja está desfocada ao fundo, remetendo que o mais importante é essa relação entre as duas personagens, além de reforçar ainda mais esse aspecto de memória para o público. Entretanto, essa conexão é muito bem executada por meio de uma blocagem que ocorre ao longo do curta, carregando esse aspecto de memoria, só que em alguns momentos é mais um artifício que é utilizado para resolver coisas fora de tela, como o problema da garota na escola que em nem um momento realmente é mostrado e só comentado. Outro fator que contribuiu para a direção é se utilizar do formato 4:3 por conta de ser o formato antigo dos filmes e isso reforça ainda mais esse aspecto de recordação, porém seria interessante se ele somente fosse usado quando essa lembrança surge e não em todo o curta-metragem. 


O filme é uma prova de como o cinema universitário pode ir bem longe, contando histórias que são simples, porém comoventes e cativantes para o público em geral. Desse modo, os espectadores devem esperar um filme tocante e empático sobre a memória de infância e a relação de uma garota com a sua avó e como ela mudou sua vida, em que o diretor articula uma unidade estilística muito clara. Assim sendo, eu espero que o diretor possa contar mais histórias emocionantes que toquem o público, levando esse aspecto familiar para os espectadores no geral e que mais pessoas possam se comover ao assistir ao filme como eu me comovi.

Crítica de Adorável Evolução, por Victor Quadros

 





Quando vemos o estado do mundo e suas crises, pensar em um futuro pode ser um exercício ardiloso, a crise climática, crise política, guerras, o acúmulo de capital, nada parece caminhar para uma possível harmonia entre o ser e o espaço em que ele vive. "Adorável Evolução" pratica o exercício de pensar um futuro para a humanidade através de outras lentes, muitas vezes com discursos confusos, mas sem perder suas qualidades técnicas. 

"Adorável Evolução" acompanha o dia a dia de um futuro distópico e extremamente plastificado, figurativamente e literalmente, através do ponto de vista de um bebê. O filme possui um aspecto delirante, as atuações são exageradas, as cores saturadas demais, os objetos são desnaturados, tudo isso ajudando a compor o discurso do filme, que em muitos momentos parece um pouco equivocado. Existem muitas camadas na discussão sobre o futuro da humanidade, é necessário que qualquer obra que tenha um discurso crítico em relação a isso tenha a capacidade de distinguir e apontar os agentes causadores dos males que vemos hoje, se esse cuidado não for tomado, o discurso se ausenta de uma crítica assertiva e pode muitas vezes ser esvaziado, ou ainda, se voltar contra as vítimas do objeto criticado. 

Consumismo, consumo de ultraprocessados, crise climática, acúmulo de lixo, todas essas coisas são práticas que são fomentadas por agentes que vão muito além do cidadão comum, e "Adorável Evolução" em muitos momentos parece não ter essa percepção. Apesar de ter críticas válidas, o filme ainda parece cair em algumas falácias do senso comum que, na maioria das vezes, aponta como culpado a pessoa errada. Tudo isso resulta em um filme que tem a melhor das intenções, mas que talvez precise revisar a fonte do problema que crítica. 

Apesar de “Adorável Evolução” tratar de temas densos, o projeto opta por uma estética colorida e cheia de plasticidade, que claro, existem intenções nessas escolhas. A estética adota essa plasticidade futurista distópica, algo que lembra a estética de “Divino Amor” de Gabriel Mascaro, ou então o episódio “Nosedive” da série Black Mirror, mas aqui essa plasticidade é ainda mais intensa, usando color block, lixo na composição dos figurinos, coisas inconsumíveis viram comida, é de uma criatividade belíssima de Madu Medeiros, a diretora de arte do filme. No entanto, toda essa plasticidade, assim como a trilha sonora, por serem tão intensas, de visual e sonoridade tão saturados, parece desumanizar uma crítica tão relacionada à humanidade. O que resulta em um filme delirante, mas onde a mensagem de impacto não é transmitida. 

Por outro lado, existe um cuidado enorme com os processos técnicos do projeto. Ressalto aqui a Direção de Arte de Madu Medeiros, é de um trabalho muito criativo não só de composição de cenários ou o uso de cores, mas também a produção de objetos e figurinos que transformam lixo em arte, além do trabalho de maquiagem que também é concebido lindamente. Outro ponto alto do aspecto técnico do filme é a trilha sonora original de Lucas Sandoval, que empresta da música clássica para criar uma composição que traduz um delírio que aos poucos nos consome. Por fim, ressalto o trabalho de Colorização e Direção de Fotografia de Brendon Mota, que intensifica toda a experiência que tive com o filme.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Cobertura da Crítica de Cinema durante o Festival



O Toró desse ano traz uma novidade.

O Festival será acompanhado por discentes do Curso de Cinema e Audiovisual da UFPA, matriculados na disciplina de Crítica Cinematográfica. Cada discente vai elaborar a crítica de um filme selecionado, que será publicada aqui no blog do Toró logo após a sua exibição no Festival. A maioria dos filmes exibidos terá a sua crítica publicada.

Além disso, os alunos da disciplina também vão participar da premiação. Será a primeira edição do Prêmio da Crítica do Festival Toró, que será entregue a um filme que ofereça grande contribuição ao cinema universitário brasileiro.

Fique atento ao blog para acompanhar a cobertura da crítica.

Vai começar o Festival Toró!

 


O Toró está de volta! 

O maior festival de cinema universitário da região norte do país vai ocorrer entre os dias 21 e 25 de novembro, na sala de cinema do Sesc Ver-o-Peso, com exibição gratuita de 60 curtas-metragens. 

O Toró é um projeto de extensão vinculado ao Curso de Cinema e Audiovisual da Universidade Federal do Pará, criado pela professora Dra. Ana Lobato, e atualmente coordenado prof. Dr. Alex Damasceno. Seu foco é promover a difusão da produção audiovisual universitária de todo país, com a exibição gratuita de filmes de curta-metragem realizados no contexto educacional (cursos técnicos e de graduação). A primeira edição do Toró ocorreu em 2015 e o festival manteve edições regulares nos 2016, 2017, 2018 e 2019. Em 2020, durante a pandemia de Covid-19, o Toró realizou a sua sexta edição do em formato remoto. Nos anos de 2021 e 2022, o festival não foi realizado. Após esse hiato de dois anos (2021 e 2022), o Toró: Festival Audiovisual Universitário de Belém volta para movimentar o cenário de exibição cinema universitário na Amazônia. A edição atual também marca a volta do Toró para o formato presencial. Agora estaremos todos novamente reunidos sala de cinema. 

Mais de 130 filmes foram inscritos no 7º Toró. Após um processo curatorial realizado pelos discentes do Curso de Cinema e a Audiovisual da UFPA, a Mostra Competitiva do ficou composta por 51 curtas, que concorrem nas categorias de Ficção, Documentário e Experimental. São filmes das cinco regiões do país: 18 do Nordeste, 11 do Norte, dez do Sul, sete do Sudeste, quatro do Centro-Oeste e um filme produzido em Cuba (por um realizador brasileiro). Além disso, no encerramento do Festival, dia 25 de novembro, será exibida, fora de competição, a Mostra Cinema UFPA, com nove obras produzidas por estudantes da UFPA. Será apresentado, assim, ao público, um recorte do cinema universitário nacional e local, representativo da sua heterogeneidade de temáticas, histórias e estilos. Todas as sessões ocorrem no Sesc Ver-O-Peso, parceiro tradicional do Festival. 

Os filmes vencedores do 7º Toró serão escolhidos pelo Júri oficial do festival (estudantes e profissionais do audiovisual), nas categorias de Melhor Ficção, Melhor Documentário e Melhor Filme Experimental. O público também participa da premiação, elegendo os seus filmes preferidos em cada categoria, após o final das sessões. O 7º Toró traz uma novidade na premiação. Este ano o Júri do festival também vai escolher o melhor filme universitário produzido na região norte. Este prêmio recebeu o nome de Ana Lobato, professora do Curso de Cinema da UFPA e idealizadora do Toró, que faleceu em 2020. O prêmio Ana Lobato é um modo de homenagear também a trajetória da professora, sempre marcada pela valorização da formação e da difusão audiovisual.





Cobertura do 8º Toró - Crítica do filme Pálido Ponto Vermelho

Por Raphael Mendes Pálido Ponto Vermelho, um curta-metragem brasileiro de horror e ficção científica escrito e dirigido por Kalel Pessoa, L...