Cobertura da Crítica de Cinema durante a realização do Toró: Festival Audiovisual Universitário de Belém
quarta-feira, 22 de novembro de 2023
Crítica do curta Nosso Pé de Manga, por Klewerson Lima da Silva
Crítica do curta Ceifar Cansa, por Thiago Henrique Ferreira
"Ceifar Cansa", curta-metragem de Bruno L. Gaudencio, conta a história de Helena, uma psicóloga que, ao chegar em casa depois de um dia de trabalho, encontra seu pai sendo levado pela Morte. Para convencer a entidade a desistir de efetivar o destino de seu pai, Carlos, Helena convida a Morte para uma sessão de terapia.
O curta mergulha de forma inusitada em temas filosóficos, como o sentido da vida, o medo da morte, Deus, entre outros, do mesmo modo que aborda problemas contemporâneos como a depressão, conduzindo os espectadores por uma reflexão descontraída.
A escolha do cenário não convencional, ao colocar a morte em um contexto terapêutico, demonstra uma forma hábil de abordar temas densos de maneira inovadora. O roteiro, também de Bruno L. Gaudencio, é repleto de diálogos simples e de fácil entendimento, mas que carregam questionamentos existenciais, convidando o espectador a refletir sobre a complexidade da vida humana, especialmente quando confrontada com a inevitabilidade da morte.
A iluminação desempenha um papel fundamental na criação da atmosfera do curta, oscilando com um vermelho forte conforme a intensidade emocional da Morte. Os enquadramentos, por sua vez, em certos momentos isolando os personagens por meio de planos e contraplanos, em outros momentos os aproximando em um plano único, deixam explícito na tela quando os mesmos estão próximos ou distantes emocionalmente.
A direção de arte, embora minimalista, contribui para a ambientação única do filme, destacando-se pela simplicidade que adiciona profundidade ao enredo, caracterizando a personagem Morte de forma convencional (com seu manto e capuz negros e uma foice), para depois, coloca-la com um sapato confortável, caracterizando um personagem que, mesmo usando seu “uniforme de trabalho” padrão, está fazendo isso há tanto tempo que usa um calçado mais confortável por baixo de suas vestes para continuar seu trabalho infindável.
A trilha sonora, embora discreta, com um tic-tac de relógio pontual, para lembrar aos espectadores e aos personagens que o tempo passa e a morte se aproxima, desempenha um papel significativo na condução das emoções, reforçando os momentos de reflexão e afeto. A edição, dinâmica, contribui para o ritmo envolvente da narrativa, mantendo o interesse do espectador até o fim.
"Ceifar Cansa" não se limita a explorar as sombras de temas sérios e filosóficos, mas, de maneira única, tece uma mensagem positiva sobre a vida no desenrolar da trama. A conclusão do curta oferece uma perspectiva inspiradora, sugerindo que, apesar das lutas internas, a vida vale a pena ser vivida.
Crítica do curta Na Minha Época, por Reverton Rocha Pantoja
A história acompanha Miguel, que depois de ser repreendido pela mãe por se atrasar para escola, acontecimento ocasionado pelo apego do garoto a um jogo eletrônico, escuta de sua avó os relatos sobre os tempos estudantis da matriarca, que aparentemente vivia a juventude ali mesmo pela região. O enredo não se segura tanto na discrepância entre as épocas de avó e neto, e sim na curiosidade do protagonista e a forma que vai conhecendo e aprendendo sobre a distante realidade das décadas anteriores da cidade, como a existência antiga de uma ponte no caminho para a escola ou uma estação de trem atualmente inutilizado.
Embora os personagens não sejam visualmente “simpáticos” principalmente à primeira vista, a progressão da história ocasiona uma maior aceitação dessas feições e dos cenários, o que eu colocaria como um ponto alto do filme. Assim como o design, o movimento dos personagens (especialmente do rosto) pode causar um certo estranhamento inicial, mas vão se tornando mais toleráveis a ponto de desaparecer de nossa percepção. Identifico uma certa influência da animação britânica Charlie e Lola, do Discovery kids.
Dito isto, Na minha época é um exercício curioso, que vale o tempo do espectador.
terça-feira, 21 de novembro de 2023
Crítica do Curta-metragem Franco, por Izabela Chaves
O curta-metragem universitário "Franco", dirigido e roteirizado por Sarah Vivas e Mariano Jiménez, representando a UNILA – Universidade Federal de Integração Latino - Americana, destaca a fragilidade da mente humana ao explorar o inconsciente, o delírio, incorporando elementos do surrealismo, promovendo revelações de sentidos e conectando livremente ideias.
O inconsciente da mente humana sempre foi uma temática explorada por diversos cineastas, e no início do curta "Franco", essa exploração se inicia com retratos de pinturas e espaços vazios na parede. Franco, enquanto toma chá com uma jovem, é interrompido pelo telefone, momento em que a narrativa toma um rumo intrigante. Ao invés de seguir o olhar na mesma direção da jovem que saiu de cena, Franco volta-se para o lado oposto que marca o início de uma virada inicial.
A história ganha complexidade quando Franco, ao ouvir a chamada da jovem, se levanta e entra em um corredor com várias portas. Cada entrada revela um momento diferente, indicado pela mudança na roupa de Franco. No entanto, a narrativa não deixa claro se esses momentos pertencem ao passado ou ao presente, mantendo uma aura de incerteza.
A transição entre realidade e delírio se intensifica quando a voz da jovem agora vem através do rádio. Franco, seguindo na direção dela, encontra situações surreais, como uma porta que se transforma em um cavalete com uma tela de pintura em branco. Essas metamorfoses sugerem que a realidade está constantemente se transformando, levantando questionamentos sobre o que é real, o que é memória, lembrança ou sonho ao espectador.
A direção de arte desempenha um papel significativo, especialmente com objetos de arte que fornecem pistas cruciais como, por exemplo, referências a obras surrealistas. De igual modo, o relógio derretido pendurado na parede, lembrando a obra de Salvador Dalí, contribuindo para a ambientação da história. Na sequência, o objeto na parede que Franco faz, aparentemente, um teste de interpretação, adicionando camadas de significado à narrativa.
A trilha sonora, as projeções nas paredes e vozes em off, combinadas com pistas visuais, criam uma atmosfera envolvente. A revelação profunda e criativa de que Franco está lidando com o impacto de uma doença acrescenta um elemento emocional à trama. O roteiro é habilmente construído, proporcionando uma experiência que oscila entre a leveza e a reflexão sobre uma temática importante. Em última análise, "Franco" nos conduz a uma jornada pelo inconsciente do personagem, oferecendo uma experiência sensível e emocionante que abrilhanta o fazer cinematográfico universitário.
Crítica de Fora da Caixa, por Denize Ramos de Araújo
No cenário universitário, o filme escrito e dirigido por Giovana Padovani é bastante “Fora da Caixa”. O curta-metragem narra um período na infância de Elisa, interpretada por Clarice Gripp nessa fase que, durante o retorno da escola, conhece Felipe (Eric Brandão) em um parque e se tornam grandes amigos. Contudo, a forte amizade acaba prejudicando as notas da menina que se vê obrigada pela mãe a se afastar de sua nova amizade.
Já adulta, Elisa, agora interpretada por Alana Guedes, se muda para um apartamento e questiona a veracidade de suas memórias. O roteiro é bastante simples e raso em alguns momentos. De início, a construção da amizade dos protagonistas me pareceu bem simples e pouco elaborada. Contudo, é de se levar em conta que a amizade entre crianças se dá de forma tão ou mais simples que essa. Nesse primeiro segmento, a direção de arte é bem elaborada e eficiente e transmite um mundo infantil. Detalhes como os objetos de cena do quarto, o uniforme da escola e os adereços são muito bem feitos.
Entretanto, o que se sobressai são as sequências onde os desenhos de Elisa são animados e introduzidos em certas cenas para ilustrar o sentimento que ela está passando. A direção constrói planos seguindo bem a cartilha de filmes infantis e rebaixa a câmera ao ângulo de visão, para enxergarmos o mundo como Elisa o vê. A trilha sonora é muito bem aplicada, embora os efeitos sonoros poderiam ser mais presentes. A presença de Felipe é quase mágica, o garoto aparece e some como um amigo imaginário, em dado momento até mesmo surge no quarto de Elisa para brincar e desaparece sem deixar rastros. Isso nos induz a imaginar que sua presença não é real, pois nenhum outro amigo de Elisa de sua idade é mostrado.
Os personagens interpretados por Vinícius Cristóvão, José e Carol Gerliein (professora de Elisa) possuem pouco tempo de tela, embora saibam fazer bom uso desse tempo quanto a sua interpretação. Já Mônica, a mãe de Elisa, interpretada por Sandra Almeida, desempenha muito bem o papel de contraste entre o pragmatismo da vida adulta e a inocência da infância. Na segunda parte do curta, acompanhamos Elisa já adulta, com Alana Guedes nos entregando uma Elisa sem o mundo colorido a sua volta. A arquitetura do espaço e o branco dominante do quarto me lembra bastante a arquitetura moderna, nem um pouco atrativa para as crianças.
Diante da vida adulta e longe da mãe, a protagonista se questiona – assim como nós – se Felipe alguma vez foi real. Em um museu, rodeada de obras de artes abstratas, Elisa se encontra ao lado de alguém com os mesmos sapatos de Felipe. Talvez seja a imaginação da criança Elisa tentando dar cores a sua vida adulta. Em última análise, “Fora da Caixa” revela-se uma obra cinematográfica que vai além das expectativas convencionais, oferecendo uma jornada única através da infância, amizade e reflexão sobre a realidade das nossas lembranças. A simplicidade do enredo é compensada pela riqueza na construção visual e sonora, proporcionando uma experiência sensorial profunda.
A dualidade entre a vida vibrante da infância e a monotonia da vida adulta é habilmente explorada, com destaque para a interpretação cativante de Alana Guedes e a presença enigmática de Eric Brandão como Felipe. Ao questionar a veracidade das memórias e explorar a imaginação que permeia a transição para a idade adulta, o filme de Giovana Padovani deixa uma impressão duradoura, convidando os espectadores a contemplarem a magia que reside nos recantos mais profundos de suas próprias experiências.
“O sapo que não lava o pé, mas cuida bem de sua fazendinha”. Crítica cinematográfica do filme “COAXO”, por Milene Rose.
‘COAXO’ é o título do curta-metragem de animação em stop-motion de Cecilia Silva Martinez, que conta a história de um simpático sapinho fazendeiro que acorda em seu pequeno vilarejo para mais um dia de trabalho. Com seu chapéu de palha, sua jardineira jeans e seu bom humor, ele colhe seus legumes, pesca em sua lagoa e aproveita a natureza ao redor cochilando após um entardecer inteiro de trabalho.
Ao despertar de seu sono de descanso, um barulho de rastejo em meio a vegetação local chama sua atenção. Ele acaba por seguir o barulho, tentando descobrir de onde vem. Seguindo mata adentro, pouco a pouco aquela sensação de ser observado pelo desconhecido o deixa apreensivo, com medo. Ele puxa do bolso de sua jardineira uma colher, a qual aponta para o grande monumento que se sacode a sua frente, cobrindo o luar. Ele recua dando pequenos passos para longe da coisa, mas a gigante cabeça de uma cobra cascavel está parada logo atrás dele, e somente aí ele a percebe. A narrativa se encerra beirando aos 3 minutos de seu esplendor e simpatia com o gentil sapinho fazendeiro se esquentando em uma fogueira, dentro do que parece ser o interior da tal cobra, junto de seus trapinhos pendurados em um varal improvisado.
Henrique Lima assina a direção de arte e a direção de animação com total leveza e saudosismo, e que nos leva para um lugar que nos resgata desenhos da nossa infância, ao qual intencionalmente ou não, acabamos por relembrar após assistir a obras como “COAXO”. A caracterização do sapinho protagonista por momentos nos lembra a persona de “Rango” (2011), um camaleão de estimação da cidade grande que, por acidente, acaba por parar no deserto de Mojave, na Califórnia.
O curta também nos remete a demais obras que utilizam do stop-motion de maneira similar enquanto a sua estética, como na série “Hello Kitty: Vila Da Floresta” (2004), animação em argila dividido em episódios e que não conta com diálogos, apenas a narração das histórias a cada capítulo. Assim como “Hello Kitty: Vila Da Floresta”, “COAXO” não apresenta diálogos, mas diferente da obra citada, também não há uma narração em voice over. A narrativa animada por si só nos revela os momentos e acontecimentos em seu devido tempo – tempo este bem aproveitado em um curta de somente 4 minutos, sendo pelo menos 1 minuto deste dedicado aos créditos finais do projeto.
Contando com uma trilha sonora e ambiência – assinadas por Otávio Vassão – que juntas nos acompanham quase que lado a lado ao sapinho fazendeiro, o filme guia com maestria a direção de som, construindo momentos de tranquilidade por meio da sonoridade e trilha, mas também de tensão presentes no enredo, além do trabalho de foley somado aos adereços da direção de arte, todos presentes de maneira delicada e fiel a proposta artística apresentada desde os primeiros segundos do projeto.
Assim, “COAXO” se destaca não somente pela execução plena e muito bem trabalhada ao longo de seus aconchegantes 4 minutos, mas pela naturalidade e originalidade que um sapinho de chapéu, sua fazenda e um desfecho devorado – porém quentinho – podem nos trazer.
Um texto sobre memórias, por Kevin Castro
O curta-metragem “Com carinho” foi escrito e dirigido por Pablo Félix, residente no município Guapimirim no Rio de Janeiro, o filme é uma memória de infância contada pela protagonista. Em seu aniversário sua avó vem visitá-la, em virtude delas comemorarem no mesmo dia e ela ajuda com seu trabalho de escola. Nesse sentido, a obra em si tenta fazer um recorte de uma memória de infância do imaginário coletivo, trazendo essa relação familiar entre filhos e avós. Em sua direção, busca articular o desfoco como elemento essencial que ajuda na composição visual do filme, conduzindo um aspecto onírico nessas lembranças. Um ótimo exemplo disso é na cena inicial em que vemos a garota mais velha em sua mesa olhando seu caderno que está focado e esse foco é mudado quando ela escreve em seu teclado o que viu em seu caderno.
Quando a gente se lembra de algo de nossa infância, nem sempre essa memória está nítida ou nunca conseguimos lembrar exatamente de todos os fatos que ocorreram em nossa vida. Dessa maneira, ao decorrer do curta, o diretor se utiliza do desfoco para criar esse aspecto de lembrança por parte da protagonista. Nem sempre o mundo ao redor está completamente nítido e de fácil visualização, isto é, como na cena em que ela vai na loja de roupas com sua avó e a janela da loja está desfocada ao fundo, remetendo que o mais importante é essa relação entre as duas personagens, além de reforçar ainda mais esse aspecto de memória para o público. Entretanto, essa conexão é muito bem executada por meio de uma blocagem que ocorre ao longo do curta, carregando esse aspecto de memoria, só que em alguns momentos é mais um artifício que é utilizado para resolver coisas fora de tela, como o problema da garota na escola que em nem um momento realmente é mostrado e só comentado. Outro fator que contribuiu para a direção é se utilizar do formato 4:3 por conta de ser o formato antigo dos filmes e isso reforça ainda mais esse aspecto de recordação, porém seria interessante se ele somente fosse usado quando essa lembrança surge e não em todo o curta-metragem.
O filme é uma prova de como o cinema universitário pode ir bem longe, contando histórias que são simples, porém comoventes e cativantes para o público em geral. Desse modo, os espectadores devem esperar um filme tocante e empático sobre a memória de infância e a relação de uma garota com a sua avó e como ela mudou sua vida, em que o diretor articula uma unidade estilística muito clara. Assim sendo, eu espero que o diretor possa contar mais histórias emocionantes que toquem o público, levando esse aspecto familiar para os espectadores no geral e que mais pessoas possam se comover ao assistir ao filme como eu me comovi.
Crítica de Adorável Evolução, por Victor Quadros
quinta-feira, 16 de novembro de 2023
Cobertura da Crítica de Cinema durante o Festival
O Toró desse ano traz uma novidade.
O Festival será acompanhado por discentes do Curso de Cinema e Audiovisual da UFPA, matriculados na disciplina de Crítica Cinematográfica. Cada discente vai elaborar a crítica de um filme selecionado, que será publicada aqui no blog do Toró logo após a sua exibição no Festival. A maioria dos filmes exibidos terá a sua crítica publicada.
Além disso, os alunos da disciplina também vão participar da premiação. Será a primeira edição do Prêmio da Crítica do Festival Toró, que será entregue a um filme que ofereça grande contribuição ao cinema universitário brasileiro.
Fique atento ao blog para acompanhar a cobertura da crítica.
Vai começar o Festival Toró!
Cobertura do 8º Toró - Crítica do filme Pálido Ponto Vermelho
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